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O campo minado do final do ciclo afeta mercados emergentes

Quando três ciclos chegam ao fim ao mesmo tempo, coisas estranhas começam a acontecer.


São Paulo | 04/10/2018


Por Didier Saint-Georges - Diretor Executivo e Membro do Comitê de Investimento

No artigo "Colisão Tripla", destacamos os perigos que assolariam os mercados financeiros se 3 ciclos terminassem concomitantemente: o ciclo monetário (deflação da bolha de liquidez), o ciclo de negócios (uma desaceleração econômica global) e o ciclo político (ressurgimento do nacionalismo econômico). Os desdobramentos desde então infelizmente parecem ter corroborado a interpretação dos primeiros tremores sentidos no primeiro semestre. O componente monetário feriu principalmente os mercados emergentes com o escoamento do dólar. O componente do ciclo de negócios afetou o preço das commodities bem como a Europa - diferentemente dos Estados Unidos, que ainda desfruta da política fiscal expansionista da administração Trump. Por último, o componente político também atingiu a Europa e o mundo emergente com força. É sempre complicado passar pelas fases tardias do ciclo. Enquanto as primeiras vítimas começam a cair, normalmente dentre os mais vulneráveis, outras economias se mostram capazes de reunir forças suficientes para realizar uma última tentativa desesperada. Isso resulta em grandes discrepâncias de desempenho entre as regiões, os setores e as classes de ativos.

Estados Unidos: aproveitando o "até aqui, tudo bem"
O mercado de valores dos EUA tem vivido uma boa fase nos últimos três meses, ao contrário da maioria dos outros países. O índice S&P 500 aumentou 9% desde o início do ano, enquanto o Euro Stoxx caiu 2% e o índice MSCI de Mercados Emergentes perdeu 8%. Essa grande discrepância sugere que mesmo com a proximidade das eleições de meio mandato nos EUA, os investidores ainda confiam que, por enquanto, a doutrina America First é o que importa para as suas carteiras. As cifras do crescimento do PIB dos EUA continuam impressionando, muito acima do que prevíamos (4,2% em uma base anualizada no segundo trimestre). O mesmo ocorrendo com os ganhos corporativos. E em julho, o índice de confiança do consumidor dos EUA atingiu o seu nível mais alto em quase duas décadas. O mercado de valores dos EUA tem tido um desempenho superior ao esperado há algum tempo, mas a tendência se mostra ainda mais pronunciada hoje. Com o incentivo fiscal absorvendo o impacto da redução do estímulo monetário nessa etapa, bem como com um dólar em ascensão desde o primeiro trimestre, fatos que refletem e encorajam o fluxo de capitais para o país, os Estados Unidos decididamente estão em uma posição tranquila nesse período de final de ciclo. É a única economia com energia na medida em que nos aproximamos da reta final. Até aqui, tudo bem. Mas seria prudente levar em consideração que na linha de chegada, a máquina de crescimento dos EUA também sentirá o impacto da desaceleração econômica global. Tarifas alfandegárias mais altas e sanções contra o Irã começarão a morder o bolso do consumidor dos EUA. Uma política monetária mais rigorosa deixará as condições bem menos suaves do que têm sido até o momento. E a magnitude do déficit do orçamento se tornará cada vez mais evidente. Nesse ponto, o mercado de valores dos EUA tombará do seu pedestal e provavelmente enfraquecerá o dólar nesse processo. Por enquanto, porém, os problemas que assolam o restante do mundo apenas reforçam a posição privilegiada dos EUA.

O mundo emergente como uma vítima colateral da colisão do final de ciclo
As economias emergentes vêm sofrendo as consequências do estresse do mercado desde o início do ano. Ao enxugar o fluxo global de dólares, o Federal Reserve (Fed) enfraqueceu toda a classe de ativos dos mercados emergentes e literalmente devastou os países mais dependentes do financiamento do dólar (principalmente a Argentina, seguida pela Turquia). O impasse comercial iniciado pelo governo ainda redobra a força do golpe, deixando para o contágio o papel de propagar os danos. Já o lado positivo é o desempenho do mercado da Índia (com crescimento de 10% desde o início do ano), que é, sem dúvida, um prêmio por seu crescimento econômico doméstico robusto e a sua política monetária confiável. Os desdobramentos na China também são bastante eloquentes. Pequim deixou claro que pretende blindar a sua economia doméstica da ameaça de uma desaceleração, uma ameaça que a atitude do governo dos EUA só fez aumentar. Como resultado, as ações cíclicas tiveram um bom desempenho. Ironicamente, as ações de maior crescimento nos últimos dois anos foram as que mais perderam terreno. Nomes do setor de tecnologia em particular sofreram duros golpes, logo agora que as suas semelhantes dos EUA listadas na Nasdaq estão quebrando novos recordes.

O que essas mudanças implicarão no futuro?
Com a normalização da política monetária dos EUA dando os seus primeiros passos, podemos esperar uma pressão contínua sobre o mundo emergente como um todo. Também deveríamos nos abster de fazer qualquer palpite categórico sobre a "guerra comercial" promovida pelos Estados Unidos. Sobre essa questão, simplesmente não há qualquer base para assumir uma posição firme neste momento. Por último, e o mais importante, é a necessidade de manter os olhos abertos em relação aos fundamentos econômicos, a única fonte confiável para o desempenho de mercado a longo prazo. Com isso em mente, podemos afirmar que os títulos chineses de crescimento, a maioria deles apontando para a demanda doméstica e muitos deles no segmento de tecnologia, agora oferecem um enorme potencial de desempenho a longo prazo. Para resumir, quando 3 ciclos chegam ao fim, coisas estranhas começam a acontecer. Bombas-relógio começam a explodir aqui e ali, enquanto os poucos abrigos antibomba disponíveis já se encontram lotados. Em termos técnicos, as correções de mercado ocorrem, inicialmente sem grandes contágios, enquanto a liderança de mercados de valores se estreita de forma notável. Com metade do ano já decorrida, o mercado de valores dos EUA superou com folga os seus rivais globais, sendo que apenas um nome, Amazon, é responsável por mais de um terço do desempenho geral. Acrescente-se aí a Microsoft, Apple e Netflix e temos os quatro nomes que geraram mais de 80% dos lucros totais no S&P deste ano. A gestão de ativo se tornou um negócio perigoso.

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